3
a roupa. Este systema penal tinha só a vantagem de tirar ao vicio os enfeites da intelligencia, reduzindo-o á essencia bruta de sua nudez primitiva. Já não era pouco para exemplo e edificação das almas. O melhor moralista será aquelle que despir o delicto do coração das galas que lhe veste o desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos.
Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os propagandistas da corrupção tentaram exercitar o seu maleficio, vertendo para pessima linguagem portugueza novellas francezas, que transpozeram as fronteiras no couce da bagagem do Junot.
Em 1814, a immoralidade, até esse anno sopeada pela impertinente virtude das novellas, taes como A virtude recompensada e o Escravo das paixões, quebrou as ferropeas, e despejou do regaço dissoluto a versão de Tom Jones, o Sophá, o Candido, e quejandas faúlas incendiarias, que pegariam nos corações, se a manteiga e o paio das tendas não esfriassem a força comburente d'essa droga, que acirrava os paladares anthropóphagos d'aquelle festim de 1793.
Bemdita e louvada seja a ignorancia! Os romances francezes, até 1830, encontraram as almas portuguezas hermeticamente calafetadas. Ate esse anno infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da despensa, a providencia da piuga, e sobre tudo, a femea do homem, qual Jehovah a fizera d'uma costella do mesmo.
O salão era um como trintario cerrado, onde, a espaços, uma gosmenta matrona espirrava, e a sociedade, a cabecear de somno, surgia estremunhada, dizendo: Dominus tecum. A menina casadeira não se erguia de ao pé da mãi. O noivo mirava-a de longe em fellina beatitude; e, no auge da sua casquilha audacia, piscava-lhe a furto o olho, onde reslumbrava a paixão.
Não havia então d'estes homens mulherengos, que alambi