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ar-vos.
A loucura da cruz não morreu toda
Após dezoito seculos!--Quem chore
Do soffrimento o Heroe existe ainda.
Eu chorarei--que as lagrymas são do homem--
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
Envilecidas, barbaras, e servas.
V.
Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,
D'onde mergulhas no oceano a vista;
Tu que do trovador á mente arrojas
Quanto ha nos céus esperançoso e bello,
Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,
Quanto ha nos mares magestoso e vago,
Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma
A harmonia celeste e o fogo e o genio,
Que dêm vida e vigor a um carme pio.
VI.
A noite escura desce: o sol de todo
Nos mares se atufou. A luz dos mortos,
Dos brandões o clarão, fulgura ao longe
No cruzeiro sómente e em volta da ara:
E pelas naves começou ruído
De compassado andar. Fiéis acodem
Á morada de Deus, a ouvir queixumes
Do vate de Sião. Em breve os monges,
Suspirosas canções aos céus erguendo,
Sua voz unirão á voz desse orgam,
E os sons e os ecchos reboarão no templo.
Mudo o côro depois, neste recincto
Dentro em bem pouco reinará silencio,
O silencio dos tumulos, e as trévas
Cubrirão por esta área a luz escaça
Despedida das lampadas, que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.
Imagem da existencia!--Em quanto passam
Os dias infantis, as paixões tuas,
Homem, qual então és, são debeis todas.
Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo
Gemido do remorso, a qual lançar-se
Vai com rouco estridor no antro da morte,
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