< previous  next > 

2

. O velhinho ainda cà ficou,
Mas ella disse:--«Vou, alli adiante, à Cova,
Antonio, e volto jà...» E ainda não voltou!
Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra!
Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever...
Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

*Antonio*

Que noite de inverno! Que frio, que frio!

Gelou meu carvão:
Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,

Faz sol de verão!

Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
Á beira-mar.

Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,

Contavas-me historias:
Assim... desenterro, do val do passado,

As minhas Memorias.

Sou neto de Navegadores,
Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

Moreno coveiro, tocando viola,

A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,

Eu quero cavar:

E o vento mia! e o vento mia!
Que irà no mar!

Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja

Qual Lua, a distancia!
Vizões enterradas no adro da Igreja,

Branquinha, da Infancia...

Que noite! ó minha Irmã Maria,
Accende um cyrio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto mar...

Lá vem a Carlota que embala uma aurora

Nos braços, e diz:
«Meu lindo menino, que Nossa Senhora

O faça feliz!»

Ao mundo vim, em terça-feira,
Um sino ouvia-se dobrar!

E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,

Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com elle no peito,

Com elle crescia...)

Vim a subir pela ladeira
E, n'uma certa terça-feira,
Estive jà p'ra me matar...

Mas foi a uma

 < previous  next > 

Só, page 1
by António Nobre

<< Return to Title Details